PESQUISA SOBRE A VILA DA RAINHA pelo Ministério da Cultura e Neoenergia apresentam: Educação Patrimonial e Arqueologia na Vila da Rainha

O Objetivo da Pesquisa Arqueológica

O objetivo da Pesquisa Arqueológica no sítio Vila da Rainha é fornecer subsídios para a melhor compreensão do processo de ocupação de parte da região da Bacia do Rio Itabapoana, desde os primórdios da colonização portuguesa até o final do século XIX. O minucioso levantamento bibliográfico, cartográfico e iconográfico integra as atividades da pesquisa arqueológica realizada pela equipe do Museu Nacional na região, desde 2005.
O levantamento foi realizado através da consulta aos acervos do Arquivo Nacional, Biblioteca Nacional, Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Arquivo do Itamaraty, Serviço Cartográfico do Exército, Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro e Museu do Índio, tendo sido ampliadas para outras instituições como, por exemplo, o Arquivo do Ministério da Fazenda e arquivos particulares.

Onde Ficava a Vila da Rainha?

Existe uma discussão historiográfica em torno da localização da vila fundada por Pero de Góes em sua capitania. Qual dos dois núcleos seria Vila da Rainha: o do interior, situado nas primeiras quedas do Rio Managé, hoje Itabapoana, ou o do litoral? Esta foi uma das primeiras questões que a equipe da pesquisa arqueológica procurou responder através do levantamento dos documentos históricos, chegando à conclusão de que a Vila era formada pelos dois núcleos, tanto o do interior, como o do litoral.
As fontes pesquisadas mostram que em nenhuma oportunidade Pero de Góes atribuiu outra denominação aos dois núcleos de povoação que não fosse o de Vila da Rainha. É interessante observar que, ao escrever quando está no interior da capitania, no Rio Managé, ele coloca Vila da Rainha como local do remetente:
… Que o mereça senão he por desejo que sempre tive e tenho pera o servir o qual rogo a Jesus Cristo seja de vossa A. tão aceito como Ele foi do madeiro na Cruz… Este mesmo Deos acrescente os dias de vida e real estado de vossa Alteza…
Desta sua Vila da Rainha no Brasil… aos 28 de abril de 1546.
— Trecho de uma das cartas de Pero de Góes ao Rei D. João III
Assim, tendo como base o levantamento historiográfico, considerou-se o núcleo Vila da Rainha como as áreas da Capitania de São Tomé onde Pero de Góes deu início a sua tentativa de colonizar as terras recebidas pela Coroa que estão localizadas às margens do Rio Itabapoana, no litoral e no interior. Com o objetivo de comprovar essa hipótese, serão apresentados os resultados do levantamento feito, partindo-se da doação da sesmaria a Pero de Góes até chegar à Vila da Limeira, erguida sobre as ruínas do núcleo do interior da extinta Vila da Rainha.

Da Expedição de Martim Afonso às Capitanias Hereditárias

A Armada de Martim Afonso de Souza era composta de cinco navios muito bem aparelhados para guerra e tripulada por alguns fidalgos, muitos homens de armas, artesãos e alguns lavradores. Com ele, vinha seu irmão, o piloto Pero Lopes de Souza, que escreveria o Diário de Bordo[1] relatando os sucessos da viagem e os detalhes do litoral visitado. Vinham também Pero de Góes, seus irmãos Luís de Góes, Gabriel de Góes e, ainda, Domingos Leitão, casado com D. Cecília de Góes, filha de Luís de Góes[2].
A armada deixou o Tejo em dezembro de 1530, alcançando, em janeiro de 1531, o cabo de Santo Agostinho e, no mês seguinte, chegou a Pernambuco. Durante a viagem, ao longo do percurso, foram apreendidos vários navios franceses, cumprindo-se um dos objetivos da expedição: o patrulhamento do litoral.
Depois das batalhas contra os franceses que frequentavam as costas brasílicas e de fazer o reconhecimento do litoral incluído na demarcação de Portugal, segundo o Tratado de Tordesilhas, Martim Afonso pôde, enfim, iniciar a missão de fundar a colônia real. Decidiu aportar na enseada de São Vicente, fundando as primeiras vilas, a de São Vicente, onde construiu o primeiro engenho de açúcar, e a de Piratininga.
Distribuiu sesmarias, conforme lhe fora autorizado por D. João III. Pero de Góes, inclusive, fez proveito dessas benesses em São Vicente e fundou o engenho d’água que se chamou Madre de Deus e uma capela de Nossa Senhora com essa invocação. Engenho que ele deixou, depois, com o seu irmão Gabriel de Góes e com Domingos Leitão[3] ao tomar posse da sua capitania.
Em março de 1532, a corte de Lisboa entrou em grande aflição em razão de alarmantes notícias vindas de Marselha: vários navios estavam sendo preparados com destino às “terras do Brasil” para comerciar e colonizar. A situação exigia providências urgentes e D. João III decidiu adotar medidas muito mais enérgicas. E, ainda durante a estadia de Martim Afonso no Brasil, ocorreu uma mudança fundamental na política portuguesa em relação à defesa desse território que seria, então, deslocada do mar para terra. Em vez de tentar impedir a aproximação das naus francesas, os portugueses estabeleceriam uma série de colônias, dificultando, até mesmo, a aliança dos indígenas com eles. Um projeto vantajoso, pois permitiria reduzir os gastos da Coroa. Em 1532, D. João III adotou a “solução tradicional” para a colonização do Brasil: as Capitanias Hereditárias.
Esse sistema constituiu a forma de administração inicial dos domínios atlânticos portugueses e consistia na concessão Real de grandes domínios e privilégios, incluindo atributos de soberania, direitos hereditários, o direito de nomear funcionários, o de fundar povoações, cobrar impostos e administrar a justiça.
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À exceção de Martim Afonso e de Pero Lopes, Pero de Góes, o mais jovem de todos os donatários, era o único que já conhecia o Brasil. Góes prestara relevantes serviços na armada de Martim Afonso e adquirira não só conhecimento do litoral do Brasil, sobretudo do Rio de Janeiro e seus arredores, mas experiência no trato com os índios, no plantio da cana e na construção de engenhos, como o fizera em São Vicente.
O fidalgo recebeu, então, uma parcela de terras entre a capitania de Martim Afonso de Souza e a divisa meridional daquela doada a Vasco Fernandes Coutinho. Eram trinta léguas de costa, desde a Barra de Macaé até a Baixa dos Pargos, limite este indefinido, mas que seria demarcado de comum acordo pelos dois donatários em 1539.

Guia Vila da Rainha_8[1] Alguns historiadores acreditam que uma parte do Diário de Bordo teria sido escrita por Pero de Góes. In Malheiro Dias, Carlos (Dir.) História da Colonização Portuguesa no Brasil. Porto: Litografia Nacional, v. II.
[2] Lamego, Alberto. A Terra Goytacá. 8 v. Paris: L’Édition d’Art, 1913-1947, Livro I, cap. I, p.10; ver Madre de Deus, Frei Gaspar da. Memórias para servir à Capitania de São Vicente. Esse autor observa que encontrou documentos mencionando que Gabriel de Góes e Domingos Leitão ficaram administrando esse engenho depois da saída de Pero e de Luís de Góes, pp. 41- 47.
[3] Madre de Deus, Frei Gaspar da. Memórias para servir à Capitania de São Vicente. Lisboa: Typographia da Academia, Com licença de Sua Majestade, 1797. op. cit.. , pp. 41-47.

São Tomé: a Capitania de Pero de Góes

Apesar de ter conhecimento da dádiva real, Pero de Góes não pôde tomar posse imediatamente de suas terras. Sabe-se que, por ordem de Martim Afonso, ele e Rui Pinto ficaram ocupados com a guerra de Iguape, em São Vicente. E, por essa razão, não obstante já ter recebido a mercê da capitania, só mais tarde pôde deixar as terras que recebera em São Vicente entregues aos seus irmãos e partir para Lisboa, onde aportou em 1535, para apresentar ao rei o Alvará de Lembrança[1] e receber a Carta de Doação que lhe permitiria fazer valer seus direitos à capitania doada. Como observa Varnhagen, a carta de doação de sua capitania, datada de 10 de março de 1534[2], foi confirmada em 28 de janeiro de 1536:
Hei por bem e me praz, de lhe fazer mercê, como de facto por esta presente Carta faço, … da Capitania de trinta léguas de terra na dita costa do Brasil, que começarão de –– treze léguas além Cabo-Frio pela banda do Norte, onde se acaba a dita Capitania do dito Martim Affonso de Souza e se acabarão nos Baixos de Pargos: se porém não houver dentro do dito limite a demarcação das ditas trintas léguas não serei obrigado a lhe satisfazer…
E esta doação e mercê e todo n’ella conteúdo se entenderá cumprida inteiramente, desde dez dias de março de 1534 em diante, porque do dito dia lhe fiz esta mercê, da qual tinha Alvará de Lembrança por mim assignado, que foi roto ao assinar d’esta, em 28 de Janeiro de 1536…
Fica evidente, pelo teor da citada carta de doação, que Pero de Góes já recebera, havia dois anos, a mercê da capitania, embora o Alvará de Lembrança fosse de 1532. Até o momento, não é possível afirmar se ele teria ido às terras de sua capitania antes de receber, em Portugal, as cartas de Doação, a do Foral, de Couto e a carta de nomeação de Antônio Teixeira, seu feitor e almoxarife.  Em 1537, de acordo com vários historiadores, já voltara ao Brasil e encontrara, em São Vicente, com seu irmão, Luís de Góes, seguindo, então, para a capitania de São Tomé. Essa data é, no entanto, incerta. Segundo Lamego, Pero de Góes, aparelhado do que julgou necessário ao seu empreendimento, deixou Lisboa em 1538[3].
De todo modo, em 1539, Góes estava em sua capitania de São Tomé, pois procedeu nesse período à demarcação de seus limites com Vasco Fernandes Coutinho, como comprova o documento que este assinou em 14 de agosto de 1539, já então finalizada a dita demarcação. Tarefa essa que supunha instalações para algumas pessoas, pelo menos para uma estadia temporária na região, implicando, naturalmente, abrigos, víveres, ferramentas e munições. É possível que, nessa ocasião, já tivesse levado lavradores e começado a arrotear a terra para suprir o cotidiano e, até mesmo, plantado cana levada de seu engenho de São Vicente[4]. E, como sugere Varnhagen[5], Góes teria começado a cultivá-la antes mesmo de obter meios para fazer um engenho. Conseguiu, no entanto, atrair seu irmão, Luís de Góes, bem como alguns colonos, e tratou de fixar com Vasco Fernandes Coutinho a demarcação dos limites da capitania.
Não são evidentes as atividades de Pero de Góes entre agosto de 1539 e setembro de 1542 quando, em companhia de seu irmão Luís de Góes, desloca-se para Portugal, deixando em seu lugar Jorge Martins. Essa viagem teria como objetivo não só confirmar a demarcação, mas, ao que parece, obter os cabedais indispensáveis ao seu empreendimento. Faltando-lhe capital e convencido de que nada poderia empreender sem os meios necessários[6], Pero de Góes vai buscar no Reino o que lhe faltava[7].
A confirmação da demarcação é obtida e assinada no dia 12 de março de 1543.  Sua data de retorno não é conhecida, mas presumem-se suas atividades pela carta que ele envia, da Vila da Rainha, ao seu sócio, Martim Ferreira, em 18 agosto de 1545, e cujo teor nos permite supor que Góes já se achava em terras brasílicas há algum tempo.

[1] Alvará de Lembrança: promessa real por alvará, para se lembrar de fazer mercê ao diante a pessoa a quem se deu o dito alvará, que não é selado nem passa pela chancelaria. Moraes e Silva, Antônio de. Dicionário da Língua Portuguesa, recopilado dos vocabulários impressos até agora. 2ª ed. Lisboa: 1813, 2 vls.
[2] Livro 21 da Chancelaria de João III, p. 65 in Lamego, Alberto. Terra Goytacá à luz de Documentos Inéditos.  Paris/ Niterói: L ‘Édition d’Art, (8 v.), 1913-1947. [3] Esse autor não cita a fonte de onde obteve a informação. Lamego, A. op. cit.. [4] Varnhagen, F. A. História Geral do Brasil, São Paulo: Melhoramentos, 1959, v. I, p. 198. [5]  Varnhagen, op.cit.. [6]  Antonil, mais de cem anos depois, em sua obra, Cultura e Opulência no Brasil, faz uma extensa descrição dos muitos cabedais necessários para um senhor de engenho. Antonil, André João (1649-1716). Cultura e Opulência do Brasil. Belo Horizonte/ Rio de Janeiro: Itatiaia, 1997.
[7] José Gonsalves de Mello in Cartas de Duarte Coelho a El Rei. (Impressão fac-similar, leitura paleográfica e versão moderna anotada).  Recife: Imprensa Universitária, 1967. A CAPITANIA DE SÃO TOMÉ[1]
Guia Vila da Rainha_9A Capitania de São Tomé tirou o nome de um Cabo, que se encontrava na sua costa, a 22 gráos, o qual foi conhecido e assim baptizado no dia 21 de Dezembro de 1501.
(…) o logar considerado em si, é uma paragem das mais notáveis e aprazíveis que ha em todo este Brasil: a vista percorre um grande espaço sem que se lhe depare alti-baixo algum, as várzeas são cercadas de infinidade de arvores, entresachadas de rios e lagoas, muito abundantes de animais silvestres, de aves e de peixes. São suas campinas formosíssimas, de algumas vinte ou mais léguas de extensão, quasi todas tão razas quanto o próprio mar, tão verdes, enfeitadas e retalhadas da natureza, que parecem outros Campos Elyseos e são conhecidas por Campos dos Goytacazes: –– há n’ellas formosas lagoas e uma (a lagoa Feia) de tanta grandeza, que do meio d’ella mal se enxerga terra de uma parte e de outra. São suas águas doces e habitadas de infinidades de patos e outras aves semelhantes.
Porém ainda que estas campinas sejam tão formosas e de tanta fertilidade, sucede-lhes o que aos Campos Elyseos attribuiam os antigos: que custava muitos grandes trabalhos e perigos o haver de chegar a elles; porque por uma parte cercou a natureza de arvoredos espessos, rios, charcos e alagadiços extraordinários, –– por outra parte as fechou n’uma cinta de alterosas montanhas, e além d ‘isso as povoou de tribus bellicosas e inimigas entre si.
Esta mimosa e rica faixa da opulenta e peregrina terra do Brasil coube ao honrado fidalgo portuguez Pero de Góes da Silveira…

[1] Vasconcelos, Simão. Vida do Padre Joam d’Almeida da Companhia de Jesus na Provincia do Brasil. Em Lisboa. Com todas as licenças necessárias de sua majestade, nas Officinas Crasbeck, anno 1658, p. 144 e segs. Biblioteca Nacional, Obras Raras.

Carta de Pero de Góes a Martim Ferreira em 18 de agosto de 1545

Ao relatar as suas atividades, Pero de Góes demonstra uma extraordinária capacidade de planejamento e um notável conhecimento das reais necessidades para a realização do seu projeto na capitania de São Tomé. Dispunha de uma experiência que, à exceção dos irmãos Souza, nenhum outro donatário possuía.
Inicialmente, toma-se conhecimento pelo teor da carta de que ele já enviara algumas outras missivas a Martim Ferreira. A carta aqui citada foi levada, pessoalmente, por Jorge Martins, que ia a caminho de Portugal, o mesmo que aqui ficara tomando conta de sua capitania em 1542. Fato que comprova a anterioridade das atividades na capitania.
E lá ele vai, avisa Pero de Góes, referindo-se ao condutor da carta, Jorge Martins, se achar a tudo e de tudo hir de mim avisado e pera o laa avisar do que ca passo e quero agora dizer de mim como fiquo e o determino... E, em razão, das referidas cartas anteriores, Pero de Góes observa que será breve: já que por outras cartas minhas lhe dou conta do que passa e do que lla vem sô mais breve que poso…
Essa missiva é, antes de tudo, uma carta alvissareira, esperançosa. Góes presta informações detalhadas, minuciosas de todo o seu percurso e de todas as decisões tomadas tanto em relação aos locais escolhidos para os engenhos quanto ao tipo de solo. Especifica tanto a mão de obra qualificada quanto o caráter daqueles que devem vir trabalhar. Quantifica, também, o número de escravos de Guiné que lhe eram necessários. Detalhes sobre instrumentos e ferramentas são observados, tanto relativos à qualidade quanto aos cuidados que deveriam ser tomados em relação à embalagem e ao transporte. Preocupa-se, também, com as distâncias da costa ao engenho no rio e o tempo dispendido nos deslocamentos, inclusive com a questão do escoamento da produção, enfatizando para tanto o bom porto ser muito bom e experimentado por nós jaa.
Um primeiro ponto bem esclarecido na carta é sobre o local de sua chegada: o Rio Paraíba[1], onde deixa suas fazendas e de onde parte para ver as águas que na sua terra havia. Sem dúvida, já estaria pensando na possibilidade de um engenho d’água, depois de vir e largar no Rio Parahyba nossa Fazenda que fazíamos determinei ver as augoas que nessa terra onde fiquo havia, e Luis de Góes ao presente estava…
E o tempo que ele emprega nessa busca é largo: … andei perto de dous meses, por a terra ser chea de arvoredos, e os índios pouquo práticos … [naquilo que eles, os portugueses queriam] … como pela água que perto havia, mas que eram trabalhosas de se limparem: as próprias auguas susas [sujas] com paos que ao presente he trabalhosa cousa alimparem-se…
Compreende-se, pelo teor da carta, que ele buscava o melhor local para assentar sua povoação e engenhos. Ele diz:
Fui-me a fonte limpa e onde esta a cousa certa inda que pelo presente seja hum pouco longe que pode aver per terra sete ou oito legoas e por augoa dez…
Observação que sugere, pelo que se segue, que o local referido seria no rio Itabapoana, originalmente denominado Managé, como ele mesmo afirma:
Digo que isto e neste próprio rio de Managee donde estou o qual vem nelle dar outros rios… que não pude ver …
Mais adiante, ele descreve, em detalhes, o local escolhido:
Ora por este rio arriba [Rio Itabapoana] onde começa de cair de quedas e até onde boamente podem os barcos virem fui ver e achei poderem se fazer todos quantos engenhos quizermos por ser um rio onde entrao e podem entrar navios como esse qua veio vindo em tempo de agoas…
Aqui, uma referência explícita à navegabilidade do Itabapoana durante as cheias:
como esse que cá veio e corem dalto…por donde se pode fazer tudo o que quizerem neste rio e nestas cachoeiras medi o que queria fazer e para ter mais sem duvida fui ao Spirito Santo… onde me achou o caravelão quando veo…
Assim, fica evidente que Pero de Góes escolheu o Rio Managé (Cabapuana ou, como hoje é conhecido, Itabapoana) e que o local para o engenho ou os engenhos seriam onde começavam as quedas d’água como ele observa:
O primeiro engenho daugoa com oitocentas braças de levada de três palmos sós em largo e tres em fundo por terra muito chã e sem trabalho e trazem na borda do rio sobre um outeiro como digamos este que vossa mercê tem atrás de si.
Aqui, Pero de Góes faz um comparação com o local onde seu sócio mora em Portugal para que ele possa compreender a distância onde se encontra esse primeiro engenho. E Góes descreve, ainda mais, a queda d’água, que diz ele ter sessenta palmos[2] largos pera riba em baixo (ou seja, a altura da queda). Usa, outra vez, o recurso da comparação:
Que fica o engenho tão perto do rio como essas casas donde vossa mercê está e podem chegar as barcas asy como aí chegam. Ficaram os mestres muito satisfeitos da terra… E de feyto é muito estremada terra de marapenes quedentas lhe chamão eles e da maneira que eles desejavão.
Góes observa a distância dessa área até ao litoral, como se pode ler:
Ora não tem essa terra mais de dez legoas por agoa, pelo rio que não lhe faz nada noso e obra de sete legoas por terra onde lhe mandei abrir um caminho que pode um carro sem molhar pé chegar ao engenho e cavalos e tudo o que o homem quizer.
O que se pode inferir dessa notícia é o fato de que, realmente, ele estava construindo o engenho a essa distância da costa e abrindo, para tal, um caminho. Pero de Góes mandou buscar um oficial especializado que havia sido pago, segundo observa nos cadernos de contas que envia ao sócio. E ele fala no presente: “esse engenho fica”, fala em primeiro engenho, pois tem intenção de fazer outros, e na estrada que já mandou abrir e a ilha[3] que ele já tem pelos índios roçada de cana.  De todo modo, o local escolhido foi a primeira queda d’água no Itabapoana, onde existem, ainda hoje, ruínas de um moinho, de cais, alicerces e vestígios de caminhos…

[1] Pero de Góes visitara grande parte da capitania. Alguns historiadores acreditam que, vindo de São Vicente, seria natural que ele entrasse inicialmente pelo rio Paraíba, como ele diz na carta de 1545. Não se pode esquecer, no entanto, que Pero de Góes conhecia bem o litoral, pois já anteriormente estivera acompanhando expedição de Martim Afonso de Souza e de seu irmão Pero Lopes de Souza.  A escolha da enseada do Retiro seria possível, posteriormente, quando achasse que ali seria mais conveniente para ele. Talvez mais protegida. Segundo Augusto de Carvalho, Góes escolheu para seu ancoradouro essa enseada de Retiro, a poucas braças ao sul do rio Managé. Ali, no sítio que se conhece pela denominação de Barreira do Retiro, lançou os fundamentos da nova povoação, começando por erigir uma capelinha por invocação de Santa Catarina, nome da rainha de Portugal que lhe inspirara o nome de Vila da Rainha à sua povoação.
[2] Palmo:  equivale no antigo sistema de pesos e medidas a oito polegadas e no sistema métrico decimal a 22 centímetros. Morais e Silva. op. cit.. p. 468, v. II.
Guia Vila da Rainha_11Guia Vila da Rainha_10[3]  A ilha a que Pero de Góes se refere é, provavelmente, um espaço roçado, para cultivo. Morais e Silva, op. cit.. v. II, p. 150.O fidalgo Pero de Góes demonstrava uma inegável capacidade administrativa: enquanto preparava o plantio perto do engenho d’água, ele, previdentemente, construiu, perto do litoral dois engenhos de cavalos,um para os moradores e outro para eles somente: e, entretanto que estes homens rossam, faço eu qua no mar dous engenhos de cavalos moía hum deles pera os moradores, e houtro pera nós somente; e isto para o presente. Pera estes dous engenhos, bento Deus, tenho gente que abaste pera eles ressalvado moedor… porque mestre de assucar[1] ao presente tenho…no Spiritu Santo… tomado e assoldado por 3 annos… e o que mais lhes pertence o que mais lhes pertence…
Observa que para esses engenhos tem gente que abaste, salvo os moedores (dois para cada engenho) que ele requisita, recomendando que fossem bons oficiais e que viessem logo para que os engenhos não esperassem por eles. Acrescenta que para os engenhos de cavalos ele e João Velho são suficientes, mas adverte:
Agora que quero dizer ho que mister para os engenhos d’água de riba é necessário diz ele, virem 60 negros de Guiné, logo nesse primeiro ano.
 Ao escrever para o seu sócio, relaciona vários itens necessários e recomenda que sejam de boa qualidade e acondicionados em caixas adequadas para que não se inutilizem: (…) que o ferro quando o mandar… seja do milhor… as faquas… e asi as tisouras… as baratas saem caro… e em bôas caixas, porque as tesouras não aproveitão por virem em canastras…
Pero de Góes já teria enviado outras cartas com informações detalhadas sobre o seu empreendimento, inclusive cadernos com as despesas anotadas. É o que se pode deduzir das informações obtidas nas poucas cartas que restaram.


[1] “Ao mestre de açúcar pertence julgar quando há de se botar o primeiro e o segundo barro nas formas, quando se há de umedecer ou borrifar mais, ou menos, conforme a qualidade de açúcar, e quando há de se tirar o barro e o açúcar das formas”. Antonil, A. J., op. cit..  p.129.

Abril de 1546: Pero de Góes escreve ao Rei D. João III

Enquanto a carta de agosto de 1545 era repleta de notícias alvissareiras e esperançosas, essa outra carta, datada de abril de 1546, conta sobre a derrocada de Góes. No entanto, ela contém uma preciosa informação que ilumina a pesquisa: nessa carta dirigida a D. João III, Pero de Góes reitera a informação enviada anteriormente ao soberano sobre o desbaratamento encontrado em sua capitania quando da sua volta de Portugal:
Senhor – Per huma que llogo como a esta sua terra do Brasil cheguei lhe escrevi, lhe dei conta quanto desbaratada achei minha capitania e alevantada por que toda agente que nella havia fugido com o capitão…

A partir dessa informação, infere-se que, ao retornar de Portugal, onde fora buscar recursos para o seu empreendimento e confirmar a demarcação de limites com Vasco Fernandes Coutinho, em 1542, Pero de Góes encontrara sua capitania em polvorosa. Essa observação confirma as hipóteses já aventadas por alguns historiadores de que ele, de fato, já vinha desenvolvendo a sua capitania em período anterior, pois, de outro modo, não seria surpreendido, ao voltar, com o levante acontecido em suas terras.  Mas, apesar de tudo, ele perseverara, indo povoar dez léguas rio acima como ele informa, detalhadamente, na carta de agosto de 1545, e confirma, nessa segunda carta, em abril de 1546:
E como mais por servir a vossa alteza que pelo gosto que então dela tive ha nom larguei e deixei, mas antes aguentei e de novo comecei a povoar per rio acima obra de dez legoas do mar por não haver agoas mais perto[1](…) onde fiz uma muito boa povoação com muitos moradores e muita fazenda, a qual me custou muito trabalho por ser ela terra adentro e estando assim mui contentes com ter ha terra muito pacifica e hum engenho d’água quasi de todo feito com muitos canaviais…

Pelo gosto de bem servir ao seu rei ele reerguera sua capitania. Mas a situação narrada em 1546 era muito diversa, na verdade, alarmante e irrecorrível. Assim, da Vila da Rainha, Pero de Góes descreve:
Saio da terra de Vasco Fernandes Coutinho um homem por nome de Henrique Luís e outros em hum caravelão sem eu ser sabedor se foi a um porto da minha capitania e entrarão e contra o foral de Vossa A. resgatou o que quis e não contente com isso tomou um índio que era o maior principal que nessa terra havia e amigo dos cristãos pedindo por ele muito resgate o qual depois de lhe dar o que ele pedio… o entregou a seus contrários…

Como consequência, os índios se alevantarão e destruíram as fazendas e a povoação que ele fizera, queimaram os canaviais, mataram muitos dos seus melhores homens, tomaram toda quanta sua artilharia havia[2] e apesar de todos os seus esforços não lhe havia restado alternativa senão a da fuga com todos os que ainda lhe restavam.
E ele diz ao rei:
… me matarão vinte e cinco dos melhores homens que tinha e toda a fazenda que feita eu tinha como lha pode querendo ver por uns instrumentos que pera Si mandei tirar …

Cabe aqui uma observação: mais uma vez, Góes noticia sobre informações que mandara ao rei. Nesse caso, ele menciona instrumentos que mandou tirar para o rei, que poderiam ser desenhos, croquis ou, como eles os chamavam, amostras[3]. De todo modo, pode-se concluir que se Góes mandara tirar um instrumento sobre a sua povoação no Managé e enviara para o rei, era porque, de fato, essa povoação existia.
Góes enumera os seus muitos e irremediáveis prejuízos:
Fiquei com um olho perdido de que não vejo e quinze anos[4] perdidos nessa terra e o que mais sinto é a perda daqueles homens que comigo folgaram darmar por eu lhe dizer que Vosa A. Me mandara que os buscasse como fez… e ter a terra no presente em condição de se não lhe acodem ho que tudo nace da pouca justiça e …  per donde se Vosa A. nõn he provida ha de perder todo o Brasil antes de dous anos e isto não com gastar nada mais que mandar nos que cumpramos seus foraes e nom consyntamos andar ha saltear a costa… 

Adverte ao rei para o perigo de se perder não só muitas vidas, mas os muitos engenhos d’água que já haviam sido feitos no Brasil, e que tudo iria em derrocada em consequência da pouca justiça e do pouco temor a Deus e ao rei que em algumas partes dessa terra se faz…[5] 
E acrescenta:
 Eu ho tenho escrito largo ao seu feitor da casa da India peço a Vosa A. o mande ir ante a mim e delle sendo informado proveja essa sua terra onde estam muitos engenhos dagoa feitos e pode jagora render muito avendo paz na terra…

Góes refere-se a uma situação muito delicada e perigosa que se criara aqui no Brasil com a presença de piratas não necessariamente estrangeiros, sendo que, graças a desmoralização de algumas colônias, armavam-se caravelões de contrabandistas que iam a corso pela costa, desrespeitando, assim, os forais do rei.  Uma das razões que mais agravavam a situação era a Carta de Couto[6], que permitia aos criminosos serem homiziados[7]. Acontecia, como observou Varnhagem, o absurdo de um criminoso já ter cometido onze crimes e ter igual número de homizios sucessivos. Esse é o motivo, como observa Góes, dele já ter tomado a iniciativa de ter escrito largo ao feitor da Casa da Índia e, reiterar, nessa carta, o pedido para que o rei atentasse para tal situação.
Pero de Góes finaliza sua carta dizendo:
… Que o mereça senão he por desejo que sempre tive e tenho pera o servir o qual rogo a Jesus Cristo seja de vosa A. tão aceito como Ele foi do madeiro na Cruz… Este mesmo Deos acrescente os dias de vida e real estado de vossa Alteza… Desta sua Vila da Rainha no Brasil… aos 28 de abril de 1546

Pode-se concluir, através das informações levantadas, que Pero de Góes foi, de fato, o primeiro a plantar cana no Norte Fluminense e, de acordo com a documentação examinada e segundo a opinião de alguns historiadores, ele teria iniciado o plantio antes mesmo de ter recebido, em Portugal, a Carta de Doação de sua capitania. Vale lembrar que ele já havia recebido o Alvará de Lembrança em 1532, mercê real que já lhe daria direito a iniciar qualquer aproveitamento em suas terras. Dispunha, além de tudo, da experiência com a terra, com os índios e com o cultivo da cana.
De todo modo, Góes chegou, segundo suas próprias palavras, a construir um engenho d’água junto à primeira queda d’água do Itabapoana, então chamado de Managé. E ele enviou provas desse feito: os instrumentos que mandou tirar para que o rei pudesse ver, fato que não deixa dúvidas quanto à existência da sua obra. Da mesma forma, fica evidente que Góes fez uma estrada acompanhando o rio até ao litoral, local onde já trabalhava com dois engenhos à tração animal, e onde erguera também uma povoação que faria parte do que ele denominava Vila da Rainha.
E, quando escreve a segunda carta, acossado pela fúria dos Goitacazes e forçado pelas dramáticas circunstâncias a desistir do seu empreendimento, ele ainda se situa na Vila da Rainha.  Estaria, então, no litoral, na foz do Itabapoana, provavelmente, na enseada do Retiro, lugar, como o nome indica, o mais protegido da cobiça de invasores estrangeiros.


[1] Parece muito claro que Góes referia-se, na verdade, a inexistência de uma queda d´água necessária para mover um engenho d’água. E que só nesse sítio, “obra de 10 léguas”, havia uma situação favorável à construção do mesmo.
[2] Obedecendo às determinações das Cartas de Doação, os donatários deveriam providenciar o necessário armamento com os quais deveriam estar munidos todos aqueles que os acompanhassem. Em 1840, quando se fazia um levantamento topográfico na região do Itabapoana, mais precisamente no Sertão de Cacimbas, foi achado um falconete. Tratava-se de uma peça de bronze, “fundida no tempo de D. Manuel, ou com moldes desse tempo, por ter uma esfera armilar abaixo das armas portuguesas” ou seja, do início do século XVI. Esse achado parece confirmar a observação de Pero de Góes que, em uma das suas cartas, menciona que perdera, em Vila da Rainha, muita artilharia para os índios. Varnhagen, op. cit.; p. 208, v. I. RIHGB, 1840, pp. 267, 276, 399.
[3] Amostra: pintura ou desenho de uma só cor sobre papel ou panno aparelhado para tal. Morais e Silva, op. cit. v. I, p 166.
[4] Desde que viera para o Brasil, em 1530, na expedição de Martim Afonso de Souza.
[5] Varnhagen, op. cit., v. I, p. 226.
[6] A Carta de Couto permitia ao donatário conceder abrigo e terras aos condenados por delitos desde que não fossem condenados por heresia, traição, sodomia e moeda falsa.  Ninguém poderia, portanto, ser nela perseguido em virtude de crimes ou delitos anteriores desde que não fossem os acima citados. Malheiro, C., op. cit., p. 174, v.2.
[7] Homiziar: Dar guarida, esconder à ação da justiça, Fugir à justiça.

Pero de Góes e o Governo Geral

A criação do Governo Geral, em 1548, não trazia prejuízos aos donatários. Ao contrário só poderia lhes advir bens. No entanto, alguns donatários protestaram, embora a situação das capitanias fosse desoladora.
Mas, uma ameaça crescente colocava em perigo toda a colônia. Um perigo que a criação das Capitanias Hereditárias e a doação de sesmarias não impediria de se concretizar: a presença cada vez mais frequente e em maior número de naus estrangeiras, sobretudo francesas, que vinham buscar o pau-de-tinta no litoral do Brasil.
D. João III lutava com as dificuldades imensuráveis ao tentar proteger uma extensíssima faixa litorânea com recursos humanos e materiais extremamente escassos. Além de tudo, as complexas relações com os indígenas, ora cooperativos, ora inimigos e, muitas vezes, aliados dos franceses, expunha cada vez mais o Brasil à ameaça contínua das incursões e instalações francesas, sobretudo, ao sul, na região do Rio de Janeiro, área mais desprotegida.
Uma carta mais dramática é enviada por Luís de Góes a D. João III, em 1548, dando conta dos perigos que corria o Brasil com a presença dos corsários franceses que já chegavam ao Rio de Janeiro e advertindo-o sobre a possibilidade de uma fixação no território, como, aliás, ocorreria, sete anos mais tarde, com Villegaignon.
… muy poderoso senhor se com tempo e brevidade Vossa alteza não socorre a estas capitanias e costa do Brasil que ainda que nos percamos as vidas e as fazendas e Vossa Alteza perderá a terra (…) porque está em mais serem os franceses senhores dela … Eu  quizera antes dizelo em pessoa a Vossa Alteza porque tam perigosa está a costa, que nam sey  esta carta que fim averá, dous anos a esta parte vem sete a oito naos cada anno ao cabo Frio e ao rio de Janeiro…[1].
Luís de Góes enfatiza a necessidade de ajuda da própria Coroa:
Porque em tanto que estas capitanias estão de pé, com a gente delas e ajuda e favor de Vossa Alteza se alimpara a costa e o mar deles… 
Impunha-se, portanto, a demarcação do Rio de Janeiro, de Cabo Frio e da Baía de Guanabara, como uma das áreas mais privilegiadas de abastecimento do pau-brasil, o que fizera urgir a sua imprescindível defesa. D. João III aceitou as eloquentes instâncias de Luís Góes, já precedidas das advertências de Pero de Góes e de Duarte Coelho. Segundo Varnhagen, foi graças à presença na corte de Pero de Góes, e à sua ilustração e gênio ativo que foi decidido, enfim, criar no Brasil um centro de poder, para acudir onde houvesse maior necessidade[2].
Tomé de Souza recebeu instruções detalhadas sobre a instalação da sede da Coroa na Bahia: construção de uma vila de pedra e argamassa protegida por forte inexpugnável. Como Capitão-mor foi nomeado Pero de Góes. Tendo assegurado sua posição, Tomé de Souza deveria visitar as outras capitanias para aquilatar as suas deficiências e propiciar-lhes ajuda militar. As capitanias do sul, especialmente o Rio de Janeiro, mereceram especiais cuidados. Inicialmente, Tomé de Souza enviou ao Rio de Janeiro o capitão-mor do mar e da costa Brasil, Pero de Góes, que observou em sua carta de 29 de abril de 1551:

asy me fui ao Rio de Janeiro que he onde mais carregarão e entrei de noute por temer algum navio de supito, amanheceo e soube dos Ymdios de um grande nau carregada em Cabo Frio[3]
Insistia Tomé de Souza junto ao rei na necessidade da fundação de uma povoação branca que colocasse um obstáculo aos franceses que recolhiam, dizia ele, além do pau-de-tinta, uma grande quantidade de pimenta: não ponha V. A. isto em traspaço[4]


[1] Malheiro, C., op. cit., v. II, p. 259.
[2] Varnhagen não cita a fonte dessa informação, op.cit. v. I, p. 229-230.
[3] Carta de Pero de Góes ao rei D. João III, em 29 de abril de 1551. Malheiro, C., op. cit., v. II, pp 322.
[4]  Traspaço ou traspasso; entre outros significados: demorar, causar esmorecimento nas demandas, ficar como morto. Morais e Silva, op. cit., V II, p. 927,

O Abandono da Capitania: A “Ferocidade” dos Goitacazes


Premidos por uma situação incontornável, Pero de Góes e sua gente buscaram socorro na capitania do Espírito Santo, em 1546, junto a Vasco Fernandes Coutinho.   Segundo Varnhagen[1], ao partir, Góes teria deixado em poder dos bárbaros muitos edifícios já feitos de pedra e cal. E, de fato, em muitos documentos dos séculos XVII, XVIII e XIX, há inúmeras referências às ruínas encontradas na foz do Itabapoana, no local denominado Santa Catarina de Mós: construções de pedra e cal, baluartes, restos de uma capela e pedras de mós, entre outros. Sem dúvida, essas seriam as ruínas remanescentes, de um dos núcleos da Vila da Rainha construído junto ao litoral.
O major Fernando José Martins[2] observa em sua obra, que, ainda em 1868, existiam algumas ruínas no local que é conhecido como Barreira de Góes, ou Ribeira de Góes. Esse autor acrescenta que
Francisco Dias, primeiro povoador da Barra do Itabapoana depois dos donatários, ali encontrou todos os sinaes, restos e ruínas da nascente colônia… taes como fornos, fragmentos de muralhas e outros objetos que não poderiam ser, no choque, transportados para bordo das caravelas …

Fernando José Martins e Cezar Augusto Marques[3] concordam que no lugar chamado Campo, entre a Ponta de Manguinhos e o Rio Itabapoana (Managé), perto da Ponta do Retiro
se acharam vestígios de antiga povoação, e em um cômoro umas mós[4], tendo Pedro de Góes ahi levantado uma engenhoca e uma capela dedicada a Santa Catarina, que ficaram depois abandonadas, se desse ao lugar o nome de Santa Catarina das Mós.[5]

A confusão do nome, substituindo o original, Vila da Rainha, conferido por Góes, foi gerada, sobretudo, pelo capitão e cartógrafo Manoel do Couto Reys[6] ao atribuir, em seu relatório, em 1785, o nome de Santa Catarina de Mós às ruínas que ele encontrara na foz do Itabapoana (Managé), na Enseada do Retiro. Confusão perfeitamente explicável porque a capela erigida na Vila da Rainha tinha por invocação Santa Catarina, em homenagem à rainha de Portugal, D. Catarina, esposa de D. João III.  Homenagem feita a essa rainha por Pero de Góes ao atribuir, também aos seus povoados o nome de Vila da Rainha.
Augusto de Carvalho[7] também concorda que Góes escolheu para seu ancoradouro a enseada de Retiro, a poucas braças, ao sul do Rio Managé. E ali, no sítio que se conhece pela denominação de Barreira do Retiro, Barreira ou Ribeira de Góes, o donatário lançou os fundamentos da nova povoação, começando por erigir uma capelinha por invocação de Santa Catarina.
Duas cartas endereçadas a D. João III pelo mestre de obras, Luís Dias[8], mencionam construções realizadas na Ribeira de Góes a mando do governador Tomé de Souza. Em ambas, datadas de 1551, uma de julho[9] e outra de agosto[10], Luís Dias também se refere a construções que fazia para Góes e para gente de Góes:

Muitas casas se podem fazer e fez Pero de Góes huma estancia de madeira digo fez Pero de Góes por que lhe dixe o governador que puzesse o seu trabalho e o de sua gente e que se chamava baluarte de Góes e ele e eu fomos cortar madeira de mangue muito poderosa e que não apodrece debaixo dagua.

Não se sabe se ele se referia a construções na capitania de Góes ou se essas construções seriam na cidade de Salvador, na Bahia.
E fizemos dous baluartes, hum na Ribeira de Góes em cima de um rochedo e, em sima do rochedo, de que V. Sa verá na mostra …este ainda he de madeira he tam forte que durará segundo dizem vinte anos por ser de pao de mangue que se criam nagoa e sam como ferro … ainda, armazéns, casa de fazenda, alfandega e ferrarias.

Coloca-se, assim, uma dúvida. Essas construções teriam sido realizadas na sua capitania ou em Salvador, Bahia, onde Pero de Góes teria se fixado após a sua volta de Portugal com Tomé de Souza?  Sabe-se que, de fato, ele aí fixou moradia e construiu uma casa que, segundo o seu próprio testemunho, era a melhor da Bahia. De todo modo, não se pode ter certeza diante da coincidência de nomes. Luís Dias designaria, então, duas localidades em lugares diferentes? Talvez fosse possível elucidar essa questão através das amostras (desenhos) que Luís Dias mandara para Portugal por intermédio de seu sobrinho, caso elas não tivessem se perdido em um naufrágio onde o mesmo pereceria.                   
De todo modo, os vestígios remanescentes de um dos núcleos da Vila da Rainha permaneceram e puderam, como vimos, ser comprovados. E, se não há referências às ruínas da Vila da Rainha localizadas no interior do Managé, no sítio apontado por Góes como local de construção do engenho d‘água, isso não significa que elas não existissem ou que se desconhecesse esse rio. Os muitos documentos cartográficos produzidos comprovam que a região da foz do Managé era bem conhecida nos séculos XVI e XVII, tanto pelos espiões franceses Vaux de Clay e Guillaume Le Testu, como pelos cosmógrafos portugueses, espanhóis e outros europeus.


[1] Varnhagen, op. cit., p. 199.
[2] Martins, Fernando José. História do Descobrimento e Povoação de São João da Barra e dos Campos dos Goitacazes antiga capitania da Parahyba do Sul e da causa e da origem do levante dos fidalgos acontecido no meado do século passado. Dividido em 3 Partes. Rio de Janeiro: Typographia de Quirino & Irmão, 1868, pp. 41-43.
[3] Marques, Cezar Augusto (Coord.). Diccionario historico, geographico e estatistico da Provincia do Espirito Santo. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1878.
[4] Augusto de Carvalho fala das 2 móz assaz rijas, de hum mármore grosseiro com mesclas de cor mais negra, mais ou menos escabrosas: huma toda inteira com mais de 5 palmos de diâmetro, e 1 de grossura, e outra quebrada, não por casualidade mas por curiosidade louca. op. cit.. p. 258; Martinz, in Manuscritos de Manoel Martinz do Couto Reys, observa que uma dessas mós, fabricada artificialmente se acha na praça da cidade de S. João da Barra, junto à grade da cadeia, que faz frente à Matriz.
[5] Reys, Manoel Martinz do Couto. Manuscritos de Manoel Martinz do Couto Reys.  (Transcrição do manuscrito original). RJ: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 1997.
[6]  Reys idem, ibidem.
[7]  Carvalho, Augusto de. Apontamentos para a História da Capitania de S. Thomé. Campos: Typ. e Lith. de Silva, Carneiro & Comp, 1888.
[8]  Cartas de Luís Dias, mestre de obras, a D. João III, rei de Portugal. (Original na Torre do Tombo) in Notícias Antigas do Brasil, Annaes da Biblioteca Nacional, v. 57, pp. 20 -28.
[9] Alguns historiadores observam que Luís Dias foi enviado para o Brasil para tratar de fortificações em Salvador, Bahia. No entanto, Souza Viterbo, analisando o Alvará de nomeação, observa que o mesmo foi designado como mestre para tratar das fortificações “daquelas partes do Brasil” sem que se especificasse qual a capitania.  Souza Viterbo. Diccionario Histórico e Documental dos Architetos, Engenheiros e Construtores Portugueses ou ao serviço de Portugal. Publicado por indicação da Comissão dos Monumentos. Lisboa: Imprensa Nacional, 3 v. P. 279-280.
[10]  Cartas de Luís Dias, mestre de obras, a D. João III, rei de Portugal. (Original na Torre do Tombo) in Malheiro Dias, C., op. cit., v. II, pp. 362-363.
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Há notícias, em alguns documentos, como Augusto de Carvalho menciona[1], sobre existência de um antigo engenho d’água:
dizem-nos que há um logar situado no interior acima do sertão de Cacimbas[2] denominado Engenho D’Água em algum sítio não identificado, que suspeitamos seja aquele em que existiu este engenho; mas não temos dados para affirmá-lo.

Esse seria, possivelmente, o engenho d’água referido por Pero de Góes. Mas, a ausência de referências sobre os remanescentes do povoado que Góes teria erguido junto às quedas do Managé explica-se, facilmente, pelo silêncio documental consequente do abandono da capitania e de um obstáculo intransponível construído pelo pavor inspirado pelos índios Goitacazes. Pavor que nascera das malogradas experiências de Pero de Góes, alimentado fartamente pelos relatos de vários cronistas, viajantes, piratas e religiosos que contribuíram para a elaboração de um terrificante conceito dos nativos, que ficaria impresso no imaginário dos colonizadores até os meados do Século XIX.
Cronistas do século XVI, como Gabriel Soares de Souza, por exemplo, em seu Roteiro Geral escrito em 1587, apresentam esses indígenas como dotados de tal ferocidade que eram capazes de matar tubarões com as próprias mãos:
Costumam esses bárbaros por não terem outro remédio, andarem no mar nadando, esperando os tubarões com um pau muito agudo na mão, e, em remetendo o tubarão  a eles lhes davam com o pau que lhe ia pela garganta que os afogavam, e matavam e o traziam a terra, …para lhes tirar os dentes, para os engastarem nas pontas das flechas…[3]

Ainda em fins do século XVI, um pirata inglês, Thomas Knivet, na Histoire Pittoresque des Voyages, assim descreve os Goitacazes:
 Os Ouetacás, não cessam de guerrear seus visinhos, e não recebem estrangeiros entre elles para negociarem. Quando elles não se julgam os mais fortes fogem com ligeiresa comparável a dos veados. Seu porte sujo e asqueiroso, seu olhar feroz, e sua physionomia brutal, fazem delle o povo mais odioso do Universo; elle se distingue da maior parte dos indigenas do Brazil pela sua cabelleira a qual deixam cahir pelas costas e só cortam um pequeno círculo na fronte. Sua linguagem não se parece com a dos seus mais proximos visinhos.
            (…) Amostram-nos de longe, sem pronunciar uma palavra e cada um deixa ou toma o que lhe convem. Esse, methodo se observa com bastante lealdade; mais parece que a desconfiança é recíproca e que se os Portuguezes temem de serem devorados, os Ouetacás não temem menos a escravidão.
O Provincial da Companhia de Jesus, padre Fernão Cardim observa em uma narrativa epistolar sobre uma missão jesuítica[4]:
Do Espírito Santo partimos para o Rio de Janeiro, que dista dali oitenta léguas. Dois ou três tivemos bom tempo, e logo nos deu um temporal tão forte, que foi necessário ficarmos árvore seca quase dois dias com muito perigo por estarmos sobre uns baixos dos Guaitacazes, mui perigosos. (…) ali estivemos a Deus misericórdia, e cada um encomendava a Nossa Senhora quanto podia por vernos de perto a morte…

Outro jesuíta, Simão de Vasconcelos, em uma de suas obras[5], A Vida do venerável padre José de Anchieta, faz uma longa, minuciosa e apavorante descrição dos Goitacazes e da consequente impossibilidade de qualquer pessoa, que não indígena, habitar a região onde eles viviam. Vasconcelos a considera uma região infernal ao compará-la com o Averno[6].

Nação de gentio pernicioso, bárbaro e terrível por nome Goytacá … Era esta sorte de gentio a mais feroz e deshumana qua havia por toda aquella costa; seus corpos eram agigantados, de grandes forças, dextros em arcos, inimigos de todas nações e tragadores sobremaneira de carne humana, de cujos ossos faziam grandes montes em seus terreiros, e era este o mor brazão de seus feitos heróicos as muitas ossadas dos que matavam e comiam em guerras, era assombro perpétuo d’aquella região. O districto que habitavam em pequeno dentro dos termos do rio Parahyba, Macaé e Espírito Santo, sítio porém horrível e inexpugnável, porque, em vez de montes, comuns aos mais tapuyos, quaes crocodilos viviam nas águas das grandes lagoas, de que abundavam seus campos, chamados porisso de Goytacazes, em choças de palhas fundadas cada qual sobre um esteio de páo metitido na arêa, por mor segurança de seus contrários; cercados sobretudo de mattas espessas, rios e charcos inaccessíveis.

Outro relato consta da vida do jesuíta João d’Almeida[7], religioso cujo testemunho é valioso. Segundo Simão de Vasconcellos, ele teria missionado entre os Goitacazes. Sobre esses e a região que eles ocupavam, observa:

… era lugar entam sospeito e tan arriscado a todo homem que ouvesse d’apontar a esse distrito porque como essa casta de gentio Goitacá não tinham pazes firmes com ninguém e discorrem todo o espaço do seu distrito continuamente… Todas as pessoas estranhas que encontram fazem pasto de seus dentes e era esta a melhor iguaria fina, a da carne humana …  Nisto tinham parado vários caminhantes que se atreveram a querer passar aquelas paragens entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo … põem as ossadas nas paragens pera espantar e pera que não entrem em sua busca … m nos terreiros de suas aldeias, junto às portas de suas mesmas casas, grandes rumas de ossos dos que mataram e comeram e disto se jactam e quanto maior a ruma de ossadas maior fica sendo a nobreza de cada hum… Estes são seus brasões, e suas proezas… [8]

Em 1627, Frei Vicente do Salvador, escreveu em sua História do Brasil[9] sobre a relação entre os Goitacazes e Pero de Góes:
… um Fidalgo Muito Honrado, muito cavaleiro, (…) que fez uma frota em Portugal, à sua custa, bem fornecida de gente e se fortificou e fez povoação… esteve bem nos primeiros anos, e depois se lhe levantou o gentio e o teve em guerra cinco ou seis anos, fazendo às vezes pazes que logo quebrava, e o apertavam tanto que foi obrigado a despejar terra e a passar-se com sua gente para o Espírito Santo…


[1] Carvalho, Augusto.  op. cit., p. 271.
[2]  Sertão de Cacimbas. Caminho para o interior que finaliza no Rio Itabapoana. Trata-se do mesmo local onde foi encontrado, em 1840, o falconete com brasão do século XVI, op. cit., RIHGB,2, pp.267, 276, 395.
[3]  Souza, Gabriel Soares. Roteiro Geral com largas informações de toda a costa que pertence ao Estado do Brasil e a descrição de muitos lugares dela, especialmente da Bahia de Todos os Santos (1540-1591). Org. Fernanda Trindade Luciani, São Paulo, Hedra, p. 92.
[4] Cardim, Fernão (1540- 1625). Tratados da Terra e Gente do Brasil. Belo Horizonte/ São Paulo: Itatiaia/USP, 1980, pp. 168-169.
[5] Vasconcelos, Simão de. A Vida do venerável padre José de Anchieta, da Companhia de Jesus. Lisboa: 1632, passim.
[6] Averno: inferno, região infernal, in Morais e Silva, v. I, op. cit., p. 293.
[7]  Vasconcelos, Simão. Vida do Padre Joam d’Almeida da Companhia de Jesus na Provincia do Brasil. Em Lisboa. Com todas as licenças necessárias de sua majestade, nas Officinas Crasbeck, anno 1658, p. 144 e segs. Biblioteca Nacional, Obras Raras.
[8] Vasconcelos Simão, op. cit., p. 144.
[9] Salvado, Frei Vicente do. História do Brasil (1500-1527). Edição Monumental. São Paulo: Odebrecht, 2010.
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Gil de Góes e a Desistência da Capitania de São Tomé

Todas as terríveis histórias sobre os Goitacazes seriam reforçadas com os desenganos vividos pelo herdeiro de Pero de Góes, seu filho, Gil de Góes. Desenganos que o levariam à desistência da sua donataria e à devolução da mesma à Coroa.  
Segundo Fernando José Martins, Gil de Góes, em virtude das contínuas guerras com os indígenas, nunca pôde aproveitar-se, como pretendia, da natureza e fertilidade de das terras de sua donataria.  Martins observa, ainda, que uma união entre vários grupos indígenas Goitacazes e Xipotós com os ferozes Botocudos ou Aymorés do Rio Doce teria dado o golpe final na vulnerável colônia.
De acordo com a tradição oral herdada dos antigos descendentes dos hereos[1] daquele lugar, um fato teria desencadeado a última e mais sangrenta investida contra o desafortunado, culminado com a sua expulsão e a devolução da capitania à Coroa:
Gil de Góes, entre outros índios que conseguiu domesticar, acolheu uma menina de tenra idade filha de uma parenta próxima de um cacique da vizinhança a quem fez batizar com o nome de Catharina. Crescendo no corpo, na idade e na formosura, a pupila do chefe augmentava também na beleza; este não tivera forças para resistir aos encantos da seductora filha das matas, nem tão pouco esta aos amorosos afagos do donatário. Com é de crer, a esposa deste percebendo o que quer que fosse, começou a nutrir zellos, com razão ou sem ella; e como tinha gênio pouco prudente começou a maltratar por palavras e obras, a condescendente jovem, que incessantemente pedia a seu amante que a fizesse transportar para outro lugar distante de sua perseguidora.
                    
Finalmente, conclui o autor, aproveitando-se de uma ausência de seu marido, a ciumenta esposa infringiu à jovem terrível castigo, levando-a à fuga e à busca de acolhida junto aos seus parentes. Os indígenas, vendo-a em estado lastimável, com o corpo ensanguentado, juraram vingança de morte contra aquele que era a causa do seu martírio. 
Gil de Góes voltou para Portugal, mas não há informações sobre as datas em que ocorreram os episódios acima narrados e nem mesmo documentos que comprovem se são verossímeis. Entretanto, fica evidente que Gil de Góes fez tentativas de prosperar sua capitania e que fugiu em consequência de levante dos nativos.
E, por essa razão, observa o procurador Antônio Diniz, Gil de Góes e sua mulher, Francisca del Aguilar Manrique,

… possam fazer a desistência e renunciação a Sua Magestade, El rei D. Felippe, Nosso Senhor, de um capitania que eu, o dito Gil de Góes, tenho no Estado do Brasil que a houve e herdei de Pero de Góes meu pai, defunto. (…) Do mesmo modo sua mulher, Dona Francisca … a tudo renuncia …
                   
Prossegue Antônio Diniz:

… eles cedem e trespassam nas mãos de Sua Majestade, em o que não lhe dá direito nem ação alguma, porquanto o dito Senhor lhes dá pello dito respeito duzentos mil reis de tença em vida, e que possa o dito Gil de Góes da Silveira testar por sua morte dos ditos duzentos mil reis, cem mil na dita sua mulher…

Depreende-se desse documento que Gil de Góes, ao desistir de sua capitania, eximiu-se de perdê-la por não atender às condições impostas no regimento de doação. Ao antecipar essa atitude, procura obter de Sua Majestade, Felipe IV, a tença[2] mencionada acima, com direito inclusive de repassá-la, parcialmente, para sua mulher, após sua morte.


[1]  Assim eram denominados os 7 capitães.

A Capitania é Dividida: os Sete Capitães

A transferência de todos os direitos da Capitania à Coroa feita por Gil de Góes implicava a vacância de toda essa extensa faixa de terra. Mais uma vez via-se a capitania abandonada, correndo o risco de se tornar um abrigo de criminosos foragidos da justiça das capitanias vizinhas e de escravos fugidos que tinham a proteção dos nativos. Como, aliás, já havia acontecido após a saída de Pero de Góes. Ou, ainda mais grave, tornar-se resguardo de piratas ou corsários estrangeiros[1] que assombravam a Coroa com a perspectiva de invasões, pilhagens e ou instalações de colônias.
Em 1627, agindo como delegado da Coroa e na qualidade de governador da Capitania, Martim de Sá concederia em sesmarias as terras compreendidas entre a Barra do Rio Macaé e o Cabo de São Tomé. Os agraciados foram conhecidos como os hereos ou os Sete Capitães:  Miguel Aires Maldonado, Gonçalo Correia, Manuel Correia, Duarte Correia (conhecido como Vasqueanes), José de Castilho Pinto, Antônio Pinto e Manoel Riscado.
A concessão feita abrangia uma grande parte da capitania de Pero de Góes e viria a formar, mais tarde, na segunda metade do século XVII, a capitania de Paraíba do Sul ou de Campos dos Goitacazes.
Martim de Sá, ao favorecer os Sete Capitães, visava povoar a capitania abandonada já há muito tempo. A concessão foi feita com a condição de os capitães ocuparem a terra, cultivarem-na e nela fazerem engenhos. Como antes mencionado, o perigo das invasões estrangeiras em busca do pau-brasil perdurava e os grupos de invasores deslocavam-se buscando regiões menos povoadas onde pudessem estar a salvo de interferências dos representantes da Coroa.
Através de um documento extremamente interessante, muito rico de informações, são conhecidos os detalhes das expedições organizadas por esse grupo para o extenso e penoso trabalho de reconhecimento da região: Descripção que faz o Miguel Ayres Maldonado e o capitão José de Castilho Pinto e seus companheiros dos Trabalhos e Fadigas das suas vidas, que tiveram nas conquistas da Capitania do Rio de Janeiro e São Vicente com a gentilidade e com a piratas n’esta costa[2].


[1] Dicionário do Brasil Colonial, op. cit., pp. 487-489; Holanda, S. B. História Geral  da Civilização Brasileira, São Paulo: Difel, v.I, pp. 168 e segs.
[2] Descripção que faz o Miguel Ayres Maldonado e o capitão José de Castilho Pinto e seus companheiros dos Trabalhos e Fadigas das suas vidas, que tiveram nas conquistas da Capitania do Rio de Janeiro e São Vicente com a gentilidade e com a piratas n’esta costa. 1647.  RHIGB, Rio de janeiro: 1893, Tomo LVI, parte I, pp 341-400. Esse documento foi publicado por Augusto de Carvalho nos Apontamentos para a História da Capitania de São Tomé, com o título: Roteiro dos Sete Capitães.

Ainda os Goitacazes…

A partir da doação, em 1627, os Capitães dispõem-se, como eles escrevem em sua narrativa, a conhecer a “nova propriedade”. Observam, porém, que embora tivessem grande desejo de conhecer toda a região viram-se impedidos durante algum tempo pelo temor que os índios lhes inspiravam:
Tínhamos grande desejo de irmos ver esta nossa propriedade, porém corria uma notícia muito dezastrosa dos gentios Eucatazes, e assim ficamos indecisos algum tempo;  aonde então tivemos a notícia que os selvagens Eucatazes mais ferozes costeavam pelo norte do Parahyba até as cordilheiras das minas de ouro, e que estes é que fizeram oppozição ao dous donatários, quando estes  queriam dar comeco a sua donatária ao norte do Parahyba[1]… Com estas notícias ficamos mais satisfeitos e animados apezar que já tinhamos lidado muito com gente de semelhante natureza.

Outra vez comprova-se a presença de Goitacazes mais ferozes ao norte do Rio Paraíba, na região do Itabapoana, justificando o desconhecimento ocasionado por um afastamento deliberado da região que se estenderia até meados do século XIX.
Assim, embora a doação tenha sido feita em 1627, só em 1632 os capitães iriam realizar o reconhecimento de suas terras. A demora, pelo que se depreende das observações acima, teria sido ocasionada pelo medo dos Goitacazes.
Entre os vários momentos descritos pelos capitães, está a ocasião na qual encontraram um ancião que fora testemunha dos acontecimentos que culminaram com a expulsão do último donatário Gil de Góes. O homem contou-lhes que quando esses últimos donatários se foram com a sua gente, ficaram ali, com ele, uns poucos, entre homens e mulheres, pois já estavam afeitos a esses lugares…
À medida que os capitães fazem as suas expedições e vão instalando suas fazendas, correm, cada vez mais, notícias alvissareiras sobre a região que ficaria então conhecida como Campo de Goytacazes: as extensas e férteis campinas propícias à criação de gado. Morando em seus engenhos na Guanabara e em Cabo Frio, os capitães foram arrendando os seus quinhões e, consequentemente, novos habitantes chegaram e a cobiça de muitos ia se exacerbando, desejosos de também compartilharem as posses dos Sete Capitães.
As alvissareiras notícias sobre os Campos dos Goitacazes chegaram aos ouvidos do General Salvador Correia de Sá e Benevides que indaga do Provincial da Companhia de Jesus sobre a dimensão dessas terras, ao que este lhe responde:
- Senhor! É um continente! É a maior parte da capitania de Pero de Góes.
- E, eles, os sesmeiros, quantos são?
- São sete, porém na existência são só dois, pois três são falecidos e dois embarcaram para a costa de leste pois não tem mais família.
Esse curioso diálogo faz parte da narrativa dos capitães e, a partir desse interesse despertado, de acordo com o relato inserido na Descripção, o General chama, em 1647, em sua residência, o Capitão Miguel Ayres Maldonado. Nessa oportunidade, o General indaga sobre a extensão das terras, tendo confirmado a informação precedente da grande extensão das sesmarias doadas: eram campinas muito dilatadas que a vista não alcançava… E perguntando sobre a gentilidade, soube que os indígenas, embora pertencendo a mesma nação dos Goitacazes, eram, por ali, muito pacíficos. E que os mais ferozes haviam ido para os sertões além do Paraíba.
O General exigiu, então, ao capitão Maldonado que este lhe apresentasse os documentos comprovadores de sua posse. E, alegando que os mesmos não eram satisfatórios, promoveu uma pretensa regularização da situação das propriedades, através de uma escritura forjada de mãos dadas com os jesuítas[2].  Graças à posição que ocupava e ao poder que detinha, apoiado pelos jesuítas e beneditinos, o governador obrigou os capitães a assinarem uma nova escritura de composição na qual ele e os religiosos seriam aquinhoados. Contudo, o golpe final seria dado em 1674. Salvador de Sá e Benevides obtém a doação da Capitania de São Tomé para os seus filhos, João Correia de Sá e Martim Correia de Sá, o 1º Visconde de Asseca.
 O documento forjado que resultou em doações foi a origem de uma nova sequência de graves e sucessivos conflitos que vieram a perturbar os Campos dos Goitacazes, pois, fundamentados nelas, beneditinos e, sobretudo, jesuítas aumentaram desmedidamente seus domínios.
Um aspecto relevante observado durante a análise da Descripção dos Sete Capitães foi a constatação da ausência total de referências ao Rio Itabapoana (Managé ou Cabapuana). Não houve, da parte dos capitães, nenhuma intenção de adentrar os territórios designados como os sertões do Rio Paraíba. O pavor inspirado pelos nativos Goitacazes que ocupavam essas matas constituía uma eficiente barreira psicológica como se fora uma muralha intransponível que os impedia de ir além. Esse fato confirma a hipótese de que durante todo esse período a região apontada por Pero de Góes como o local onde ele teria construído o engenho d’água não foi conhecida, frequentada, ou objeto de interesse. Nem mesmo a divisão das terras dos Sete Capitães a novos sesmeiros abrange terras além do Rio Paraíba.


[1] Descripção, op. cit. p. 348.
[2] Escriptura forjada pelo General Salvador Correia de Sá e Benevides de mãos dadas com os jesuítas et reliqua. Carvalho, Augusto, op. cit., p. 224.

Os Jesuítas

A chegada dos jesuítas não resultou de imediato em uma política de aldeamentos. Tratava-se, inicialmente, de uma missão itinerante em que os poucos jesuítas deslocavam-se com grande sacrifício e risco da própria vida para levar a palavra de Deus. Foi Manoel da Nóbrega, o primeiro provincial da Companhia de Jesus no Brasil, quem percebeu a fragilidade dessa ação missionária. Foi ele quem elaborou um plano de colonização apoiado pela Coroa e definiu a conveniência de garantir o auto sustento da Instituição. A posse de terras foi, sem dúvida, o primeiro passo para esse objetivo, tal como a Coroa Portuguesa, os interesses temporais dos inacianos voltaram-se, necessariamente, para as atividades agrícolas.
Além de catequizadores, em termos sociais, os jesuítas atuaram como colonizadores, políticos e economistas, além de terem um papel essencial para a defesa da colônia com a constituição das aldeias de nativos. A localização em torno da Guanabara e em pontos específicos do litoral significava um escudo defensivo das capitanias. Em inúmeras vezes, por ocasião de invasões estrangeiras, os indígenas dessas aldeias foram requisitados para comporem forças em defesa da capitania.
Para realizar os seu objetivos, a Coroa portuguesa concedeu aos jesuítas sucessivos e inúmeros privilégios através de alvarás e provisões de mantimentos, isenção de impostos, direito de resgatar escravos e concessão de grandes sesmarias, entre outros.
Assim, atendendo às expressas determinações da citada provisão de 1617, foram dadas as providências para a instalação da Companhia na Capitania de São Tomé. A empresa da conquista espiritual do gentio dessa capitania pelos jesuítas começaria em 7 de março de 1619[1]. E logo chegaram as primeiras notícias:
Estamos aposentados entre Goitacazes, defronte da Ilha de Santa Ana, ao longo do rio dos Bagres, na parte do sul.

Teriam, então, mandado trinta e quatro índios pelo rio acima para aquietarem e trazerem tamoios de um aldeia que estava em guerra com os Goitacazes e os iam comendo enquanto podiam…
O trabalho entre os índios prossegue e aos jesuítas se junta mais um, o Padre João de Almeida. Esse jesuíta efetuaria um intenso trabalho junto aos índios da região e a sua vida seria contada por Simão de Vasconcelos[2], autor também da Suma Histórica da Companhia de Jesus.
Foram organizadas várias expedições para a conquista dos Goitacazes e os seus bons frutos são relatados com grandes alegrias e esperanças. A intenção era reuni-los na Aldeia de Cabo Frio, tantos tamoios quanto Goitacazes: será bom ajuntá-los e estarão à nossa disposição… Os objetivos da defesa da terra vão sendo alcançados: em 7 de abril de 1619, em nova expedição, encontra estrangeiros traficando o pau-brasil e a eles dão guerra com sucesso. Cumpriam-se, assim, os objetivos da Coroa, mas não sem alguns percalços.  Alguns casos graves ocorrem, entre esses, há uma quebra de paz e os Goitacazes aprisionam e comem alguns náufragos que vieram dar naquela região. Há um recrudescimento de hostilidades e os Goitacazes recuam para um monte onde são cercados por soldados portugueses e indígenas. O padre João Lobato oferece-lhes o perdão por terem comido brancos e, se caso quisessem descer para as aldeias, tudo seria esquecido.  E assim desceram trezentos Goitacazes que se aposentaram nas aldeias. E dessa maneira, escreve o Padre Inácio Sequeira, foi concluída a pacificação, dominada rapidamente pelos nativos das Aldeias de Cabo Frio e Espírito Santo:
A selva goitacá, cheia de bárbaros e de selvagens, começou a dar algum fruto digno dos Jardins Celestes, graças ao calor incrível dos Nossos Irmãos.

Mesmo assim, não há indícios de que os jesuítas tenham ocupado a região da Vila da Rainha no Itabapoana.  Existem alguns mapas que mostram a ocupação da capitania da Paraíba do Sul, os marcos da Fazenda Moribeca e a área desocupada em torno do Itabapoana.


[1] Serafim Leite, Novas Cartas Jesuíticas. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1940. Brasiliana, v. VI, P79.
[2] Vasconcelos, Simão. op. cit., passim.

A Regiao do Itabapoara

É relevante o silêncio dos documentos sobre a região do Rio Itabapoana entre os séculos XVII e o XIX: todos os dados a mencionam como extremamente perigosa em virtude da “ameaça dos índios bravos”. Observa-se que os vários documentos, tanto textuais quanto cartográficos, não trazem qualquer indício de ocupação colonizadora na citada região a não ser uma extensa área marcada com a indicação: “sertão dos índios bravos” (Goitacazes, Coroados, Puris, e Botocudos).
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Em toda a extensa documentação levantada só há notícias da ocupação dessa região do Itabapoana, onde hoje se encontram as ruínas, em dois momentos: no século XVI por Pero de Góes e no século XIX com o povoado de Limeira e a criação do respectivo porto. Há um hiato entre a primeira ocupação da Vila da Rainha, no século XVI, e a sua reocupação no século XIX. Por meio do exame das ruínas existentes – cais, engenho, muros e canaletas – é possível verificar distintos momentos de ocupação mostrando alterações nos materiais utilizados. Entretanto, ainda é necessário investir em estudos orientados pela Arqueologia Histórica e pela Arquitetura para identificar os tipos de construções.
As estruturas analisadas pela pesquisa arqueológica, entre elas o cais, o moinho, os muros e as canaletas, têm traços que indicam modificações que podem ter ocorrido para a adequação de suas funções. Algumas dessas alterações podem ser observadas nos tamanhos das pedras utilizadas nas construções, nos tipos de argamassa e nos acabamentos. O muro do cais do Porto da Limeira é um exemplo dessas alterações, onde se observa a mudança no material utilizado e no tipo de acabamento.



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Somente em meados do século XIX a região começou ser frequentada em virtude do recuo das populações indígenas. Seria criada, então, a Vila de Limeira às margens do Itabapoana, local de um dos núcleos de povoamento de Vila da Rainha.
De fato, a partir de meados do século XIX verifica-se uma grande expansão na província do Rio de Janeiro e no interior de Minas Gerais. A criação de vias de acesso para o interior eram imprescindíveis. E o mais fácil, considerando-se os meios de transportes disponíveis na época, seria a exploração das vias fluviais e a melhoria dos acessos a elas existentes. O rio Itabapoana era considerado de extrema importância, sobretudo pelo presidente da Província de Minas Gerais. No relatório encaminhado ao Senador Manoel Teixeira de Souza pelo vice-presidente da Província de Minas Gerais, este ressalta a relevância dos portos de Limeira, do Rio Muriaé, e o de São João da Barra para escoar as produções de café, madeiras e outros gêneros. Faltava, no entanto,
Prover de remédio a lavoura e o comercio dos povos do Itabapoana, únicos que se achão até o presente fazendo a exportação de seus produtos com grande dificuldade e dispêndio, ora procurando os portos vizinhos, onde há vapores, ora descendo o Itabapoana em canoas para aproveitarem os barcos a vela que do Itabapoana navegão para a corte…  
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Principalmente após 1860, observam-se as notícias sobre a criação da freguesia de Limeira, seu desenvolvimento, projetos de estradas, de canais e da navegação fluvial no Rio Itabapoana. Também os grandes levantamentos topográficos e cartográficos sobre Província do Rio de Janeiro passam a incluir maiores informações sobre o Itabapoana e os seus arredores.
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O Conselheiro considerou tão importante prover de remédio essa situação que se empenhou em ajudar a incorporar uma sociedade e contratá-la com os governos das Províncias do Rio de Janeiro e Espírito Santo para saná-la. O projeto visava prover de
(…) navegação a vapor do rio Itabapoana, em uma extensão de 10 léguas, desde o Porto da Limeira até a povoação de São Sebastião da Barra de Itabapoana, onde deve tocar duas vezes por mês, logo que encetada seja a navegação fluvial, os vapores de quaisquer das linhas que actualmente partem da Corte para os portos vizinhos à dita povoação.

O Conselheiro mostrou-se extremamente esperançoso de que em futuro muito próximo todos da população ribeirinha possam usufruir desses benefícios. E conclui, ressaltando a extrema necessidade de fazer melhorias urgentes nas vias de acesso à Limeira e suas ligações à Barra de Pirapitinga e à Natividade.  Infelizmente, esse projeto revelou-se muito mais complicado do que parecia ao otimista Conselheiro Vicente Pires da Motta.
O porto ficava no modesto povoado da Vila da Limeira, originado a partir de uma aldeia de pescadores que ali se instalara desde que os nativos deixaram aquela região. Esse povoado conheceu uma efêmera expansão com a criação do Porto da Limeira que, segundo Alberto Lamego, foi instalado no local da antiga Vila da Rainha, fundada por Pero de Góes[1].


[1] Lamego, A. op. cit.,  t. V,  passim.
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A partir de 1850 os relatórios de presidente de Província dão notícias frequentes sobre a criação do Porto da Limeira e da disputa do município de São João da Barra para inseri-lo em sua jurisdição. Inclusive, com a expansão desse povoado, o Município de São João da Barra pede que se revejam os limites acordados com o município de Campos dos Goitacazes, projeto que já havia sido aceito por São João da Barra em 1856.
Os relatórios dos anos seguintes mencionam seguidamente o projeto de navegação para o Rio Itabapoana, as dificuldades para executá-lo e os adiamentos requeridos pelos engenheiros. Reiteradas vezes menciona-se a necessidade de melhoria das estradas e pontes que dão acesso à Vila da Limeira para Pirapitinga, imprescindíveis à viabilidade da navegação do rio Itabapoana.
O relatório encaminhado em 1863 à Assembleia Legislativa Provincial de Minas Gerais pelo Presidente da mesma província, Conselheiro João Crispiniano Soares, demonstra a profunda insatisfação com a situação não resolvida acerca da instalação da navegação no Itabapoana. Ele faz uma detalhada exposição comunicando que se dirigira ao Cidadão Carlos Pinto de Figueiredo à respeito da empresa que se acha à testa cobrando-lhe as providências necessárias para resolver o problema de comunicação das três províncias. Seguiu-se um longo e detalhado relatório organizado, segundo ele, com a colaboração do engenheiro Aroeira no qual ele exorta as autoridades competentes e as províncias envolvidas para que encontrem os meios de resolver as dificuldades e simultaneamente atender ao commercio das três províncias.  O relatório chama a atenção para a situação estratégica do Porto da Limeira, no Itabapoana, observando que por sua posição mais ao norte é o porto que mais vantagens oferece ao comércio e aos sobreditos municípios e à comunicação com a corte.
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As providências foram tomadas pelas informações prestadas pelo Desembargador Luiz Alves de Leite de Oliveira Bello ao passar a administração da província do Rio de Janeiro em 1863. Ele anuncia que celebrou os contratos com os engenheiros Carlos Pinto de Figueiredo Eduardo Joaquim Pereira de Oliveira conforme a Lei 1233 de novembro de 1861 para a exploração do Rio Itabapoana. O relatório de 1863 informa sobre os melhoramentos da estrada de Limeira à Barra de Pirapetinga.
Finalmente, o relatório encaminhado em 3 de maio de 1864 pelo primeiro vice-presidente Tavares Bastos ao presidente da Província do Rio de Janeiro, Conselheiro João Chrispiniano Soares, traz uma notícia alvissareira:
Com satisfação dou conhecimento a V. Sa., no dia 20 de abril da inauguração da linha de navegação fluvial no Itabapoana a esforços da sociedade representada pelos comendador Carlos Pinto Figueiredo e Major Eduardo Joaquim Pereira de Oliveira abrindo assim os empresários uma estrada rápida para o prospero futuro ao commercio e lavoura de vários municípios e de não menos três províncias interessadas.
Depois de uma viagem a São João da Barra, em 3 hora e meia e de rebocar para fora da barra do Itabapoana 2 navios que seguião para a Corte, empreendeu o pequeno vapor da sociedade a subida do rio até então usado por canoas e balsas, e tocando na foz do rio Preto e na de Santa Cruz, galgou o Porto da Limeira, saudando-o numeroso concurso dos povos do interior.
Dissipadas as dúvidas da praticabilidade da navegação, que nascião das muitas voltas e correnteza do rio, ficou reconhecido que com alguns mais melhoramentos e aperfeiçoando o vapor, o serviço de navegação far-se-a mais rápido e na razão das mais agradáveis aspirações da empresa e do público. 

 Ao que parece, no entanto, não foram feitos os aperfeiçoamentos necessários pois os numerosos relatórios subsequentes informam as dificuldades com a navegação, com as obras ainda pendentes, com as plantas não entregues pelos mencionados engenheiros responsáveis pela sociedade de navegação. O relatório de 1865 informa que haviam sido prorrogados os prazos requeridos pelos procuradores da empresa de navegação do Itabapoana. A justificativa alegada pelo vice-presidente da Província, o conselheiro Tavares Bastos, para a concessão solicitada, era o interesse que várias famílias norte americanas haviam demonstrado em se fixar na região, dispostas a virem viver na comunhão brasileira
O relatório de 1866 informa que tendo em vista as dificuldades experimentadas e por não ser naquele momento considerável a afluência de cargas e passageiros, a pedido da sociedade de navegação resolve o Governo Provincial reduzir, como de fato fez, a quatro o número de viagens mensais (…).
Os relatórios subsequentes informam sobre as muitas dificuldades relativas ao projeto em curso e há contínuas reclamações sobre o atraso das obras necessárias para que funcionasse a contento a linha de navegação. No entanto, a necessidade de transporte fluvial como meio de interligação com o interior das Províncias do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e do Espírito Santo foi minimizada a partir da instalação da estrada de ferro. A região que passaria a ser atingida através da navegação no Rio Itabapoana viu-se atendida pelo transporte ferroviário, como se pode ver no mapa, de 1887 e no mapa esquemático organizado a partir das informações coligidas em 1888.
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A ligação com o interior de Minas Gerais e com Santo Eduardo no Itabapoana atenderia aos problemas de transporte. O projeto da navegação no Itabapoana afundara nas muitas dificuldades e o Porto da Limeira viu-se abandonado. O mapa de 1887, mandado organizar pelo presidente da Província Dr. Antônio da Rocha Fernandes para servir ao serviço de imigração mostra-nos um panorama interessante: a região em torno do Itabapoana ainda permanece pouco ocupada. E a informação desse mapa corrobora os mapas de 1868 e o mapa esquemático levantado a partir das informações de 1860: uma grande concentração de engenhos e fazendas pode ser observada em torno do Paraíba e em direção ao Muriaé. As setas indicam a navegabilidade do rio Itabapoana, mas Limeira, cuja indicação aparece no mapa de 1868, já não consta mais nesse mapa. Há, sim, a indicação da ferrovia chegando a Santo Eduardo. Em 1896, seria criada a ferrovia Estrada de Ferro Itabapoana, ligando inicialmente essa estação à fazenda da Boa Vista, hoje cidade de Apiacá, e a estação de Santo Eduardo perderia grande parte de sua utilidade.
Além disso, o próprio povoado de Limeira viu-se em decadência em virtude de febres palustres que atingiram seus moradores. Assim, tendo sido transferido para a região montanhosa com o nome de São Pedro de Itabapoana. E essa situação justificaria o comentário feito muitos anos depois por Alberto Lamego sobre o engenho de Pero de Góes:
Onde hoje existe o decadente povoado de Limeira, havia sido construído, 300 anos antes, um engenho de açúcar movido à água, o primeiro que existiu na terra goytacá. [1]


[1] Lamego, Alberto. Terra Goitacá, op. cit., t. V, pp. 259.
Fonte: http://ydreams.com.br/viladarainha/

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