O Mistério do Tesouro de Ponto de Cacimbas: memórias de um passado que o tempo não apagou

Relatos de antigos moradores revelam histórias sobre os jesuítas, a Fazenda São Francisco, as antigas corridas de cavalos, a educação e até a lenda de uma fortuna enterrada em Ponto de Cacimbas.

Há histórias que não estão nos livros de história, mas que permanecem vivas na memória daqueles que as ouviram de seus pais, avós e antigos moradores. A história de Ponto de Cacimbas, em São Francisco de Itabapoana, é uma delas.

Em uma tarde de verão, enquanto o sol dava lugar à lua, o autor do relato conversava com dois antigos moradores da região: Augusto Miranda de Azevedo, conhecido como Póvinha, e sua esposa, Dona Maria Pereira de Azevedo, a Dona Neném. A conversa acabou revelando histórias que atravessam gerações e ajudam a compreender como era a região em tempos passados.


Os jesuítas e os primeiros tempos de Ponto de Cacimbas

Segundo a narrativa, a localidade de Ponto de Cacimbas teria sido desbravada pelos jesuítas, que ali teriam se estabelecido e construído um sobrado e uma grande capela.

A tradição conta que a capela possuía muitas imagens de santos, inclusive uma imagem de São Nuncha, com uma coroa de ouro cravejada de brilhantes.

Nesse cenário aparece a figura de Arsênio Araújo, homem que, segundo o relato, teria recebido dos jesuítas terras e riquezas e acumulado uma considerável fortuna em joias e propriedades.

Arsênio não tinha filhos e acabou criando um sobrinho.


O conflito com Chico Barão e a Guerra do Paraguai

A história conta que o sobrinho de Arsênio Araújo teria sido vítima da perseguição de Chico Barão, proprietário da Fazenda São Francisco.

O rapaz teria sido preso e enviado para a Guerra do Paraguai, onde acabou morrendo.

A perda teria deixado o velho Araújo profundamente desgostoso. Já no fim da vida e sem parentes próximos, ele teria tomado uma decisão que transformaria sua história em uma das grandes lendas da região.


A talha de ouro do velho Araújo

Com medo de que sua fortuna acabasse nas mãos de Chico Barão, Arsênio teria reunido todo o ouro, as pedras preciosas e outros objetos de valor que possuía.

Segundo a tradição, até mesmo as coroas de ouro utilizadas nas imagens dos santos teriam sido guardadas.

Tudo teria sido colocado dentro de uma talha e enterrado em um lugar secreto.


Mas onde?

Essa é justamente a parte que transformou o relato em uma verdadeira lenda.

Segundo a história, somente a escrava Felicidade, confidente do velho Araújo, saberia onde a fortuna havia sido escondida.

A memória popular ainda preservou alguns versos:

Brigou Barão com Araújo
O sobrinho foi p’ra guerra
E aquela grande fortuna
Foi p’ra debaixo da terra.

A pergunta permanece:

Onde estará o tesouro?

Até hoje, a localização dessa suposta fortuna permanece envolta em mistério.

E por que o nome Ponto de Cacimbas?

Outra pergunta feita durante a conversa foi justamente sobre a origem do nome da localidade.

A explicação apresentada pelos antigos está relacionada à própria história do lugar.

Segundo o relato, com a influência dos jesuítas, todos os domingos aconteciam encontros de cavaleiros e animais vindos de diferentes localidades, como São João da Barra, Barra do Itabapoana, Itapemirim e outros lugares.

Ponto de Cacimbas teria se tornado um ponto de encontro desses cavaleiros.

E havia também a questão da água.

Segundo a memória registrada, a água dos riachos da região era bastante salobra. No sertão, era comum buscar água nas cacimbas.

Daí teria surgido a denominação Ponto de Cacimbas.

Um ponto escolhido pela história

Mas Ponto de Cacimbas teria sido muito mais do que um simples ponto de encontro.

A própria narrativa destaca que o local teria sido escolhido para que pessoas se fixassem na região, tornando-se posteriormente palco de importantes acontecimentos.

Nas palavras registradas no relato:

“Ponto onde está enterrada a talha de ouro do velho Araújo. Ponto das célebres corridas de cavalos. Ponto escolhido para a subestação de eletricidade. Ponto onde foi criado o único Hospital do sertão.”

E a história continua:

“Tem mais. Ponto onde foi criado o primeiro colégio, e seu professor era Crispiniano, discípulo dos padres.”

São referências que ajudam a mostrar como a localidade ocupou um espaço importante na formação da região, reunindo acontecimentos ligados à religiosidade, educação, saúde, transporte, energia e lazer.

O primeiro colégio e Crispiniano

Entre as memórias destacadas está ainda a criação do que o relato apresenta como o primeiro colégio da região.

Seu professor teria sido Crispiniano, descrito como discípulo dos padres.

Essa informação acrescenta mais uma camada à história de Ponto de Cacimbas, mostrando que a educação também teria encontrado ali um de seus primeiros espaços de desenvolvimento.

Uma conversa que virou memória

Depois de tantas histórias, personagens e acontecimentos, a conversa chega a um momento descontraído.

Dona Neném, que havia contribuído para revelar tantas lembranças do passado, encerra o diálogo com versos bem-humorados:

“Eu vim saber do passado,
Escrevi até um conto.
Estou muito satisfeito,
Não aumente mais um ponto.”

O trecho dá um toque especial ao relato e mostra como a memória também pode ser preservada através da conversa, do humor e da poesia.

História, memória e tradição oral

É importante destacar que os acontecimentos aqui apresentados fazem parte de um relato de memória e tradição oral. Algumas informações podem necessitar de documentos históricos para confirmação, enquanto outras permanecem no campo das histórias transmitidas entre gerações.

Mas isso não diminui seu valor.

A memória dos antigos moradores é uma importante fonte para compreender como as pessoas enxergavam seu território, seus personagens e os acontecimentos que marcaram suas comunidades.

A história de Ponto de Cacimbas reúne elementos fascinantes: os jesuítas, antigas fazendas, navegação, comércio, corridas de cavalos, educação, saúde, energia, personagens locais e a misteriosa fortuna do velho Araújo.

E talvez a pergunta que mais desperte a curiosidade seja justamente aquela que atravessou o tempo:

A talha de ouro do velho Araújo realmente existiu? E onde ela estaria enterrada?

Talvez nunca saibamos a resposta.

Ou talvez alguém, em algum lugar, ainda guarde uma lembrança, um documento ou uma história passada de geração em geração que possa ajudar a desvendar esse mistério.

Enquanto isso, o verdadeiro tesouro pode estar justamente nas histórias que sobreviveram.

Preservar essas memórias é preservar a história de São Francisco de Itabapoana.


 Você conhece outra história de Ponto de Cacimbas?

Se você é morador ou descendente de famílias antigas da região e conhece outra versão dessa história, nomes de personagens, locais antigos, documentos, fotografias ou relatos de seus pais e avós, compartilhe conosco.

Cada lembrança pode ajudar a reconstruir um pedaço da história de São Francisco de Itabapoana.

Fonte: livro Sertanejas - José Estevam Linhares Machado

Postar um comentário

OBRIGADO PELA PARTICIPAÇÃO!

Anterior Próxima

نموذج الاتصال